Religião, política e os novos caminhos da fé no Brasil
Por Joselito dos Reis - A relação entre religião e política no Brasil é um assunto que merece reflexão. Fé e política pertencem a campos diferentes, mas, em uma sociedade democrática, os cidadãos religiosos têm o mesmo direito de participar da vida pública que qualquer outro cidadão. O problema começa quando a fé é utilizada como instrumento de poder, influência ou disputa política.
Nas últimas décadas, o crescimento de determinadas igrejas evangélicas modificou profundamente o cenário religioso brasileiro. Um dos exemplos mais conhecidos é o da Igreja Universal do Reino de Deus, fundada em 9 de julho de 1977, no Rio de Janeiro. Sua história está ligada principalmente a Edir Macedo e, em sua origem, também a R. R. Soares. Em 1980, após divergências entre os líderes, Soares deixou a Universal e fundou a Igreja Internacional da Graça de Deus.
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A partir daí, outras denominações também cresceram e passaram a ocupar espaços cada vez maiores na sociedade brasileira. A expansão dos meios de comunicação, da televisão, do rádio e, posteriormente, das redes sociais ampliou ainda mais a presença dessas igrejas.
Não se pode, entretanto, afirmar que todas essas organizações tenham sido criadas com o objetivo de conquistar poder político ou enriquecer seus dirigentes. Essas são interpretações que precisam ser examinadas individualmente, com base em fatos, documentos e investigações. O crescimento religioso, por si só, não comprova uma intenção política ou financeira.
O que é inegável é que religião e política passaram a se aproximar cada vez mais. Pastores, bispos, padres, líderes religiosos e fiéis participam do debate público, apoiam candidatos, apresentam propostas e ocupam cargos eletivos. Isso faz parte da democracia, desde que sejam respeitadas a liberdade religiosa, a legislação e a autonomia de cada cidadão.
Um episódio que permanece na memória dos brasileiros ocorreu em 1995, quando um bispo da Igreja Universal protagonizou, durante um programa de televisão, um ato ofensivo contra uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. O episódio provocou grande repercussão e atingiu profundamente muitos católicos brasileiros. A imagem de Nossa Senhora Aparecida possui enorme significado religioso e cultural para o país.
É importante, porém, não transformar aquele episódio em uma acusação contra todos os evangélicos. Milhões de brasileiros que professam diferentes denominações cristãs convivem pacificamente, respeitando outras religiões. O Brasil é uma nação plural, e a liberdade de crença é um direito constitucional.
Também não é correto afirmar que a Igreja Católica nunca tenha participado do processo político brasileiro. Ao longo da história, setores da Igreja Católica participaram de debates sociais, políticos e institucionais, inclusive em momentos importantes da vida nacional. O que pode ser discutido é a forma, a intensidade e os objetivos dessa participação em diferentes períodos.
E chegamos à pergunta: o Brasil continua sendo o maior país católico do mundo?
Os dados mais recentes disponíveis indicam que sim, quando consideramos o número absoluto de católicos. Segundo dados divulgados pelo Vaticano referentes a 2023, o Brasil possuía aproximadamente 182 milhões de católicos, permanecendo como o país com maior número de católicos no mundo.
Mas há uma mudança importante: o Brasil deixou de ser uma sociedade tão predominantemente católica quanto no passado. O Censo 2022 do IBGE registrou 100,2 milhões de pessoas declaradas católicas e 47,4 milhões de evangélicos. Os números e critérios das estatísticas do IBGE e do Vaticano não são exatamente os mesmos, razão pela qual não devem ser comparados diretamente como se fossem uma única pesquisa.
O cenário religioso brasileiro, portanto, está mudando. O catolicismo continua sendo a maior tradição religiosa do país em números absolutos, mas o crescimento das igrejas evangélicas e o aumento das pessoas sem religião mostram que o Brasil religioso do século XXI é diferente daquele de algumas décadas atrás.
A religião deve ser espaço de fé, esperança, solidariedade e encontro com Deus. A política, por sua vez, deve buscar o bem coletivo. Quando ambas se encontram, é necessário preservar o respeito, a liberdade de consciência e a democracia.
Não importa se alguém entra em uma igreja católica, evangélica, espírita, de matriz africana ou em qualquer outro espaço religioso. O que deve importar é o respeito ao ser humano.
Deus conosco — mas também nós, uns com os outros.
Joselito dos Reis
Poeta e jornalista


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