terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Pé no Chão

 Pé no Chão 

            *Joselito dos Reis

Cresci menino pobre, de calção preso por um elástico cansado, as vezes, por cordão, prelambulando, correndo pelas ruas, avenidas e praças da minha cidade e, tomando banho no meu rio Cachoeira, onde também pescava. Éramos muitos — todos de famílias de renda curta, mas de alma comprida. Não tínhamos luxo, mas tínhamos luta. Não tínhamos sapatos, mas tínhamos pés no chão. O chão que ensina. O chão que forma. O chão que dá coragem quando a vida parece grande demais; nos transforma.

Dos cantos das ruas, eu via os políticos passarem em seus Ford Galaxie reluzentes, com motoristas de óculos escuros e pose de reis. A gente parava para olhar… não por inveja, mas por curiosidade. Éramos meninos, e os carros brilhavam como se fossem de outro planeta. A arrogância deles, mesmo que a gente não entendesse na época, já dava seus primeiros sinais.

O incansável Paulo Leonardo 

O tempo — esse professor severo — passou ligeiro. Cresci, virei vendedor de jornal, ralei para concluir o primário. Depois, o destino me chamou pelos fios invisíveis da comunicação, e eu atendi. O rádio abriu suas portas e o meu caminho, dentro daquele universo de vozes e ondas invisíveis, encontrei meu lugar. Fui fazendo meu rumo, microfone por microfone, programa por programa, sempre com a lembrança de onde vim, sempre com o pé no chão. E, para onde deverei ir!

Hoje, com a minha abençoada família, olho em volta e vejo muita gente — inclusive aqueles que antes se achavam invencíveis — caminhando de cabeça baixa. Alguns que dirigiam Galaxies agora andam de coletivo. Outros, que carregavam arrogância como escudo, hoje carregam arrependimento no bolso. A vida cobra, e cobra caro. Porque quem planta soberba, mais cedo ou mais tarde colhe o castigo do tempo.

Mas há os outros. Os que aprenderam cedo a separar o joio do trigo. Os que escolheram a dignidade mesmo quando o caminho era árduo. Os que usaram a voz não para pisar, mas para levantar. São esses que a vida guarda com mais carinho — aqueles que transformam cada obstáculo em aprendizado e cada desafio em luz.

E eu, aquele menino de calção de elástico,limpo e  sujo,; rasgado ou não, olho para tudo isso com respeito e gratidão. Porque nada é eterno, a não ser a honra que deixamos no caminho. Viemos da terra. Voltaremos ao pó. Mas entre uma coisa e outra, existe a vida — e alguns a vivem com grandeza.

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Dedicada ao amigo e profissional de jornada que honrou e dignifica o nosso rádio de Itabuna e região pelos longos anos,: comunicador e empresários Paulo Leonardo da Silva.

-Sucesso sempre amigo!

**Joselito dos Reis

Poeta e jornalista 

02.12.2025.

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