quinta-feira, 15 de julho de 2021

ITABUNA 24 ANOS SEM O POETA TELMO PADILHA

O poeta morre, mas o seu brilho fica nas estrelas, iluminando a terra, através de sua arte.

 Um poeta genuinamente grapiúna, nascido na Vila de Conceição de Ferradas, itabunense, Telmo Fontes Padilha, nesta quinta-feira 16, completa 24 anos, do seu falecimento, provocado por um trágico acidente automobilístico, entre Itabuna e Buerarema em 1997.

 

Telmo Padilha era servidor público federal (Ceplac), jornalista, advogado e compadre do escritor Jorge Amado. Jorge Amado que também nasceu na Vila de Ferradas, hoje Bairro de Itabuna.

 

O poeta do "Voo Absoluto".  A sua poesia foi traduzida para mais de 40 outras línguas. Entre suas obras poéticas destacamos os Livos: Girassol do Espanto"(1956); "Ementário"(1974); "Onde tombam os pássaros"(1974); "Pássaro da Noite" (1977); "Canto Rouco"(1977); "O Rio"(1977); "Vôo Absoluto" (1977); "Poesia Encontrada"(1978); "Travessia"(1979); "Punhal no Escuro"(1980) e "Noite contra Noite" (1980) e o Menino e o Rio, entre outros.

 

Telmo Padilha, que nasceu em 05 de maio de 1930, tornou-se um dos poetas mais conhecido no Brasil, em todo o mundo, detentor de vários prêmios Internacionais de literatura.

 

Mas, o seu nome em sua terra natal, ainda não foi lembrado, por nossas autoridades, para uma grande homenagem, imortalizando o seu nome, merecidamente. Como, por exemplo, dando-lhe um nome de praça, rua, avenida ou logradouros.

 

Está com a palavra os vereadores de nossa cidade. Neste sentido o Clube do Poeta Sul da Bahia, encaminhou há vinte anos, um documento, que foi entregue aos vereadores, Luiz Sena e Carlito do Sarinha, este último já falecido. Documentos que deve estar perdido nos anais daquela casa. 

 

Realmente, Itabuna, às vezes, se torna ingrata com os seus verdadeiros filhos e a poesia, que é jogada ao mundo sem planos.  Prova disso é que o Clube do Poeta Sul da Bahia que já existente há 29 anos e ainda não conta com uma sede própria, apesar de já ser reconhecido pela Câmara de Vereadores de Itabuna, como de Utilidade Pública Municipal, num projeto do saudoso vereador, Roberto de Souza e votado por unanimidade.

 

Telmo Padilha, filho de Miguel Alves Padilha e Olga Martins Fontes, tornou-se um grande amigo do escritor Jorge Amado, seu conterrâneo, tornando-se, seu compadre mais tarde. 

 

 

Do - jornaldepoesia.jor.br

Telmo Padilha um pequeno bloco de poemas

(Seleção de Cyro de Mattos)

 

Sina

 

Quem deu a esse homem

Seu destino de homem?

E por que há de cumprir

Entre o começo e o fim

Sua jornada, exposto

À sua fração do nada?

Quem o fez pássaro

Por instantes

Para a noite que o sabe

Ausente de asas

Ante o mar que o traga? 

 

 

 

Antes da Queda

 

        A Emanuel Massarani

 

Ou fosse a queda do pássaro, ou fosse

Em céu tão azul seu canto abafado;

Ou no seu desprender-se o infinito

Desejo insopitado de um grito;

Ou fosse a dor de não contê-lo

Em minha mão, antes da queda,

Fosse o que fosse, um presságio

De mim se apossou: por que detê-lo

Ao rapto desse azul infinito,

Se maior que o dele era o meu grito?

 

 

Fora de Alcance

 

Esse estar não é estar aqui.

Recolhe, portanto, tuas armas.

Dores mais fundas te dispersaram

Em tantos corpos, tantas almas,

Que só pássaros as escalam.

Sou aquela estrela que não alcanças.

Sou aquela dúvida que te cansa.

Sou aquela ofensa que te gasta.

Sou tudo que temes.

Sou o vinho e o fel de tua taça.

 

 

Poema Nada Executivo

 

 

Circulas neste ar que respiro

E quase sinto teu hálito:

Não o confundam as rosas.

Poeira líquida e antiga,

Penetras o ar condicionado

Dos escritórios onde me suicido.

És meu pássaro, minha bússola,

Meu compromisso, circulas.

 

                                 Súbito

 

Pousas no rosto

Do amortalhado chefe,

Seu bigode colores

Com mãos súplices

Mas o chefe

Já está morto.

No carmim de seu rosto

Adormeces

Espalhados nos papéis

Em estranho expediente.

A um canto

A cesta

Leve túmulo

Sepulta o gesto.

 

Os Mortos Esperam

 

Os mortos esperam,

Os mortos esperam

Por seus mortos.

 

Os mortos não estão sós.

Estão com suas memórias

Que a ferrugem não trespassa.

 

Sérios graves os mortos

Não dormem nem estão sós

E esperam.

 

 

A Caminho da Fazenda

 

No pó da estrada

Entre Itabuna e Macuco,

Eu me perdia. A montaria

Marcava o passo

Do coração em descompasso

E era dia. Mas à noite

O andar era suave

Entre o pássaro calado

E o casco que catava

Vaga-lumes sobre as pedras.

Íngreme subida, o suor

Do cavalo e do cavaleiro,

A montanha estava ali.

Uma luz longe. Um pio

De pássaro na passagem.

 

Lembrança da Última Visita

Que Fiz ao Poeta Sosígenes Costa

 

Sosígenes só

Entre gravuras da China.

Lá em cima, íngreme subida

Na ladeira em arco.

Ilhéus rebrilhava ao longe.

Pavões sobre a tarde.

Sosígenes na cozinha

Assando um pato.

O sherry no cálice,

O cálice na tarde.

Rebrilhava Ilhéus ao longe.

Sosígenes sofisticado,

Em burguês disfarçado.

Relatos da china

Onde nasce um povo novo.

Sutil acusação aos poetas

Que exaltavam Stalin...

Confissões pavônicas

No silêncio da tarde.

Sosígenes copacabânico

De azul, os sapatos

De verniz para o asfalto.

Jovem rapaz na tarde.

Súplicas febris na tarde.

Ilhéus rebrilhava ao longe.

 

 

 

O Punhal no Escuro

 

I

 

Como juntar dois corpos

Num mesmo corpo, para que não haja

Luta mais que esta

De sofrerem juntos

A condenação de existirem?

Dois sexos e um único sexo

Na amplidão do leito,

Nos lençóis de cada pleito.

Passivo ou ativo ímpeto.

Como juntá-los, assim tão diversos,

Para que não disputem o espaço

No vácuo de um mesmo abraço?

Para que, se há luta, seja entre

O que força a saída

E retorna ao mesmo ventre.

Como quem se despede (sempre)

E nunca parte? 

 

 

Antropofagia

 

A fruta

Devora os dentes

Que a devoram;

O esmalte,

O tártaro,

A protelada

Cárie,

O sorriso.

A fruta

Deglute o

Apetite

Qual polpa

Deliciosa do nada.

 

Canção

 

Chamo-te flor,

Mas és pedra

Em alto cume,

Jamais lume

Para minha noite.

 

Chamo-te rosa,

Rosa-flor, espinho-rosa,

Inodora, indolor

Rosa sem nenhuma cor..

 

Rosa sem rosa, rosa-flor

Ao acaso, por ser rosa

Dos olhos mas não da vida,

Essa vida em que o a rosa

É uma coisa impretendida.   

Viva a poesia!


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