Um poeta genuinamente grapiúna,
nascido na Vila de Conceição de Ferradas, itabunense, Telmo Fontes Padilha,
nesta quinta-feira 16, completa 24 anos, do seu falecimento, provocado por um
trágico acidente automobilístico, entre Itabuna e Buerarema em 1997.
Telmo Padilha era servidor público
federal (Ceplac), jornalista, advogado e compadre do escritor Jorge Amado.
Jorge Amado que também nasceu na Vila de Ferradas, hoje Bairro de Itabuna.
O poeta do "Voo
Absoluto". A sua poesia foi traduzida para mais de 40 outras línguas.
Entre suas obras poéticas destacamos os Livos: Girassol do Espanto"(1956); "Ementário"(1974); "Onde
tombam os pássaros"(1974); "Pássaro da Noite" (1977);
"Canto Rouco"(1977); "O Rio"(1977); "Vôo
Absoluto" (1977); "Poesia Encontrada"(1978);
"Travessia"(1979); "Punhal no Escuro"(1980) e "Noite
contra Noite" (1980) e o Menino e o Rio,
entre outros.
Telmo Padilha, que nasceu em 05 de maio de
1930, tornou-se um dos poetas mais conhecido no Brasil, em todo o mundo,
detentor de vários prêmios Internacionais de literatura.
Mas, o seu nome em sua terra natal,
ainda não foi lembrado, por nossas autoridades, para uma grande homenagem,
imortalizando o seu nome, merecidamente. Como, por exemplo, dando-lhe um nome
de praça, rua, avenida ou logradouros.
Está com a palavra os vereadores de
nossa cidade. Neste sentido o Clube do Poeta Sul da Bahia, encaminhou há
vinte anos, um documento, que foi entregue aos vereadores, Luiz Sena e Carlito
do Sarinha, este último já falecido. Documentos que deve estar perdido nos
anais daquela casa.
Realmente, Itabuna, às vezes, se
torna ingrata com os seus verdadeiros filhos e a poesia, que é jogada ao
mundo sem planos. Prova disso é que o Clube do Poeta Sul da Bahia que já
existente há 29 anos e ainda não conta com uma sede própria, apesar de já ser
reconhecido pela Câmara de Vereadores de Itabuna, como de Utilidade
Pública Municipal, num projeto do saudoso vereador, Roberto de Souza e votado
por unanimidade.
Telmo Padilha, filho de
Miguel Alves Padilha e Olga Martins Fontes, tornou-se um grande amigo do
escritor Jorge Amado, seu conterrâneo, tornando-se, seu compadre mais tarde.
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Do - jornaldepoesia.jor.br
Telmo Padilha um
pequeno bloco de poemas
(Seleção
de Cyro de Mattos)
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Sina
Quem deu a esse homem
Seu destino de homem?
E por que há de cumprir
Entre o começo e o fim
Sua jornada, exposto
À sua fração do nada?
Quem o fez pássaro
Por instantes
Para a noite que o sabe
Ausente de asas
Ante o mar que o traga?
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Antes da Queda
A
Emanuel Massarani
Ou fosse a queda do pássaro, ou fosse
Em céu tão azul seu canto abafado;
Ou no seu desprender-se o infinito
Desejo insopitado de um grito;
Ou fosse a dor de não contê-lo
Em minha mão, antes da queda,
Fosse o que fosse, um presságio
De mim se apossou: por que detê-lo
Ao rapto desse azul infinito,
Se maior que o dele era o meu grito?
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Fora de Alcance
Esse estar não é estar aqui.
Recolhe, portanto, tuas armas.
Dores mais fundas te dispersaram
Em tantos corpos, tantas almas,
Que só pássaros as escalam.
Sou aquela estrela que não alcanças.
Sou aquela dúvida que te cansa.
Sou aquela ofensa que te gasta.
Sou tudo que temes.
Sou o vinho e o fel de tua taça.
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Poema Nada Executivo
Circulas neste ar que respiro
E quase sinto teu hálito:
Não o confundam as rosas.
Poeira líquida e antiga,
Penetras o ar condicionado
Dos escritórios onde me suicido.
És meu pássaro, minha bússola,
Meu compromisso, circulas.
Súbito
Pousas no rosto
Do amortalhado chefe,
Seu bigode colores
Com mãos súplices
Mas o chefe
Já está morto.
No carmim de seu rosto
Adormeces
Espalhados nos papéis
Em estranho expediente.
A um canto
A cesta
Leve túmulo
Sepulta o gesto.
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Os Mortos Esperam
Os mortos esperam,
Os mortos esperam
Por seus mortos.
Os mortos não estão sós.
Estão com suas memórias
Que a ferrugem não trespassa.
Sérios graves os mortos
Não dormem nem estão sós
E esperam.
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A Caminho da Fazenda
No pó da estrada
Entre Itabuna e Macuco,
Eu me perdia. A montaria
Marcava o passo
Do coração em descompasso
E era dia. Mas à noite
O andar era suave
Entre o pássaro calado
E o casco que catava
Vaga-lumes sobre as pedras.
Íngreme subida, o suor
Do cavalo e do cavaleiro,
A montanha estava ali.
Uma luz longe. Um pio
De pássaro na passagem.
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Lembrança da Última Visita
Que Fiz ao Poeta Sosígenes Costa
Sosígenes só
Entre gravuras da China.
Lá em cima, íngreme subida
Na ladeira em arco.
Ilhéus rebrilhava ao longe.
Pavões sobre a tarde.
Sosígenes na cozinha
Assando um pato.
O sherry no cálice,
O cálice na tarde.
Rebrilhava Ilhéus ao longe.
Sosígenes sofisticado,
Em burguês disfarçado.
Relatos da china
Onde nasce um povo novo.
Sutil acusação aos poetas
Que exaltavam Stalin...
Confissões pavônicas
No silêncio da tarde.
Sosígenes copacabânico
De azul, os sapatos
De verniz para o asfalto.
Jovem rapaz na tarde.
Súplicas febris na tarde.
Ilhéus rebrilhava ao longe.
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O Punhal no Escuro
I
Como juntar dois corpos
Num mesmo corpo, para que não haja
Luta mais que esta
De sofrerem juntos
A condenação de existirem?
Dois sexos e um único sexo
Na amplidão do leito,
Nos lençóis de cada pleito.
Passivo ou ativo ímpeto.
Como juntá-los, assim tão diversos,
Para que não disputem o espaço
No vácuo de um mesmo abraço?
Para que, se há luta, seja entre
O que força a saída
E retorna ao mesmo ventre.
Como quem se despede (sempre)
E nunca parte?
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Antropofagia
A fruta
Devora os dentes
Que a devoram;
O esmalte,
O tártaro,
A protelada
Cárie,
O sorriso.
A fruta
Deglute o
Apetite
Qual polpa
Deliciosa do nada.
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Canção
Chamo-te flor,
Mas és pedra
Em alto cume,
Jamais lume
Para minha noite.
Chamo-te rosa,
Rosa-flor, espinho-rosa,
Inodora, indolor
Rosa sem nenhuma cor..
Rosa sem rosa, rosa-flor
Ao acaso, por ser rosa
Dos olhos mas não da vida,
Essa vida em que o a rosa
É uma coisa impretendida.
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Viva a poesia!