Entidades brasileiras do setor cacaueiro apresentam estudo sobre viabilidade econômica. financiamento e sustentabilidade no Partnership Meeting 2026, em Amsterdã.
Do - Diário do Poder - Um novo estudo que comprova a viabilidade econômica da produção de cacau em sistemas agroflorestais será apresentado por entidades brasileiras no Partnership Meeting 2026, em Amsterdã, principal encontro global do setor. A oportunidade também promove o posicionamento internacional do Movimento Cacau Brasileiro, iniciativa colaborativa que busca reposicionar o país como referência mundial em produção sustentável e de alta qualidade do cacau.
Representantes do setor participam, de 16 a 20 de fevereiro, de uma missão institucional à Europa, que inclui reuniões nas Embaixadas do Brasil na Bélgica, União Europeia, além da presença no Encontro Mundial do Cacau (Partnership Meeting), promovido pela Fundação Mundial do Cacau (WCF). A delegação é formada por representantes do Instituto Arapyaú, CocoaAction Brasil, Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab) e produtores rurais. No encontro, o grupo apresentará experiências brasileiras com cacau em sistemas agroflorestais, modelos de financiamento associados à assistência técnica e um mapeamento de iniciativas voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva.
Estudo indica retorno financeiro e redução de riscos
Um dos destaques da agenda é o lançamento internacional do estudo “Viabilidade econômica de Sistemas Agroflorestais com cacau – Modelagens na Amazônia (Pará) e na Mata Atlântica (Bahia)”, desenvolvido pelo Instituto Arapyaú em parceria com o CocoaAction Brasil.
O levantamento analisou 11 modelos produtivos — sete na Bahia e quatro no Pará — que combinam o cultivo do cacau com outras culturas e espécies florestais. Em todos os cenários avaliados, os indicadores financeiros apresentaram desempenho positivo, com Taxa Interna de Retorno (TIR) superior à taxa de desconto, Valor Presente Líquido (VPL) positivo e renda média favorável. A publicação detalha a metodologia, as modelagens econômicas e as conclusões voltadas a produtores, investidores e formuladores de políticas públicas.
O estudo, lançado inicialmente em 2021, foi atualizado diante das transformações recentes da cadeia, como a volatilidade dos preços internacionais, o aumento dos custos de produção, as novas exigências comerciais e o crescimento da demanda por financiamento rural. A nova edição incorporou avanços técnicos e concentrou a análise exclusivamente em sistemas agroflorestais.
Segundo Vinicius Ahmar, diretor de programas do Instituto Arapyaú, a publicação contribui para dar maior segurança a investidores e formuladores de políticas públicas. “O estudo amplia a previsibilidade econômica dos sistemas agroflorestais e oferece subsídios concretos para que instituições financeiras e gestores públicos possam desenvolver instrumentos de financiamento e políticas mais adequadas ao setor. Além disso, os resultados das modelagens podem servir de estímulo na implantação de modelos produtivos de baixo carbono”.
As modelagens incluem combinações do cacau com banana, mandioca, açaí, cupuaçu, coco e dendê, além de espécies florestais como seringueira, mogno, ipê, jatobá e andiroba. De acordo com os pesquisadores, a diversificação produtiva contribui para estabilizar a renda ao longo do tempo e reduzir riscos das influências climáticas, fitossanitárias e de mercado.
O estudo também destaca o alinhamento dos sistemas agroflorestais às exigências regulatórias internacionais, como o Regulamento Europeu de Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), e às agendas globais de clima, biodiversidade, rastreabilidade e comércio justo e responsável.
A produção em sistemas agroflorestais está alinhada ao Plano Inova Cacau 2030, estratégia nacional que busca posicionar o Brasil como fornecedor global de cacau sustentável. “Estamos falando de um modelo rastreável que combina conservação e restauração produtiva com geração de riqueza e melhoria das condições socioeconômicas ao longo de toda a cadeia”, afirma Ricardo Gomes, também diretor de programas do Arapyaú.
Apesar da viabilidade demonstrada, o documento aponta entraves à expansão dos sistemas, como a oferta limitada de mudas e insumos, a escassez de crédito em condições compatíveis com ciclos produtivos mais longos e a baixa cobertura de assistência técnica especializada. Nesse contexto, a publicação ressalta a importância da articulação entre financiamento e assistência técnica, com destaque para modelos inovadores, como o Fundo Kawá, estruturado em formato de blended finance, que integra recursos de mercado e filantrópicos.
O trabalho reúne dados públicos, informações de campo e contribuições de instituições como Belterra, CEPLAC, Centro de Inovação do Cacau (CIC), Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb), Mondelez International, Natura, Parque Científico e Tecnológico do Sul da Bahia (PCTSul), Renova Cacau, SENAR Bahia, Solidaridad Brasil, TNC Brasil, Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e WRI Brasil.
Diagnóstico técnico reforça evidências científicas
Um relatório complementar elaborado pela professora Deborah Faria, do Laboratório de Ecologia Aplicada à Conservação (LEAC) da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), reforça o diagnóstico apresentado pelo estudo. O trabalho foi encomendado pelo Governo dos Países Baixos e desenvolvido em parceria com o Instituto Arapyaú e a Conservação Internacional.
O documento reúne e analisa as informações mais recentes sobre os sistemas agroflorestais de cacau no Brasil, combinando estudos técnicos, evidências científicas e entrevistas com especialistas, além de mapear projetos, políticas públicas e iniciativas em curso.
“Um dos principais problemas da cacauicultura em pequena escala é a falta de assistência técnica regular e especializada. A escassez de profissionais e os altos custos para atender produtores no campo dificultam o acompanhamento contínuo das lavouras, o que compromete o controle de pragas, doenças e problemas climáticos, reduzindo a produtividade”, avalia a professora Deborah, doutora em Ecologia.
Instituto Arapyaú
O Instituto Arapyaú é uma organização filantrópica brasileira que fomenta e incuba redes e iniciativas estruturantes para promover o desenvolvimento justo, inclusivo e de baixo carbono do país. O instituto visa à promoção de uma agenda de natureza a partir de uma perspectiva integrada entre pessoas, economia e clima, atuando em temáticas emergentes que conectem esses pontos, como a bioeconomia e a restauração florestal.



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