quarta-feira, 15 de abril de 2026

UMA GRANDE LEMBRANÇA QUE NÃO MORREU COM O TEMPO

Joselito dos Reis
Artigo de Joselito dos Reis - Às vezes, no passar rápido e silencioso do tempo, as lembranças surgem como um encanto. Elas borbulham na mente, trazendo de volta a saudade de um período qualquer da vida, como se tudo estivesse acontecendo novamente, diante dos nossos olhos. Foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Vieram à tona, como se fosse hoje, recordações de 58 anos atrás, da minha passagem por um curso de reforço no bairro do Pontalzinho, em Itabuna, na residência do professor Augusto Alves, que também era cantor e músico. Um homem de grande sensibilidade, que ensinava com dedicação e amor. Ele era auxiliado pelo professor Alfrânio Peixoto, outro educador marcante, que contribuiu para a formação de muitos jovens da época, em 1970.

Naquele tempo, eu morava no bairro de Fátima, antigo Cajueiro. Todos os dias, sempre na companhia de um colega, seguíamos para a escola. Meu amigo chamava-se Valdemir. Era alto, forte e de personalidade tranquila. Com o passar do tempo, infelizmente, perdi completamente o contato com ele, depois do término do curso de reforço que tinha como objetivo a admissão, ou seja, o ingresso no ginásio, que era o caminho natural rumo ao vestibular.

Valdemir passava todos os dias, às 18 horas, na minha casa. Eu morava em uma residência simples, metade de tijolos, metade de taipa, localizada na Rua São João. Apesar das dificuldades, ali existia algo que nunca faltou: dignidade, amor e esperança.

Essas lembranças voltaram com mais força recentemente, durante um jantar simples, cujo cardápio era farinha, cebola e carne do sol frita. De repente, senti-me transportado para aquele tempo distante. Era exatamente esse o prato que me esperava quando eu chegava da aula de reforço.

A farofa já estava pronta, com o toque especial da minha mãe, Josefa dos Reis. Mulher guerreira, que além dos afazeres domésticos, ainda costurava para ajudar nas despesas da casa. Meu pai, José Deraldo dos Santos, era feirante, trabalhador incansável, lutando diariamente para sustentar a família. O orçamento era apertado. Eu era o mais velho e, desde cedo, também ajudava nas despesas, junto com meus seis irmãos ainda em crescimento.

Chegava da aula por volta das 11 ou 12 horas da noite, com fome redobrada depois da caminhada. Aquela farofa com carne do sol era, para mim, um verdadeiro banquete. Muitas vezes, meu amigo Valdemir também dividia comigo aquele prato simples, mas cheio de afeto e significado.

Às vezes, quando tínhamos algum dinheiro, comprávamos um acarajé da "baiana Maria", na Avenida do Cinquentenário, próximo aos hotéis Odete e Portugal. Era um sabor inesquecível. No tabuleiro dela, também havia cocadas de amendoim e de coco, que adoçavam ainda mais aquela juventude simples, mas feliz.

Encerrávamos mais um dia de aula sob a orientação dos professores Augusto Alves e Alfrânio Peixoto. Era uma época fenomenal. As meninas nos chamavam de "pão", e nós as chamávamos de "gatinha" ou "princesa". Era o tempo das primeiras conquistas amorosas, tudo com muito respeito, inocência e carinho.

Que saudade daquela escola! Dos colegas, alguns presentes apenas na memória. Lembro-me de Creuza, Narlene e Valdemir. Marlene chegou a namorar meu amigo Domingos, que mais tarde se tornou professor e mestre de karatê. Ele é o único com quem ainda mantenho contato até hoje.

Nossa escola ficava em frente à antiga Praça do Trabalho, hoje chamada Praça Tito Brandão. Um lugar simples, mas cheio de histórias, sonhos e esperança.

São lembranças que o tempo não apaga. Épocas difíceis, sem dúvida, mas também profundamente ricas em valores. A dignidade, o respeito e a solidariedade eram marcas fortes daquele tempo.

E o tempo seguiu seu curso.

Anos depois, em 1978, realizei um grande sonho: passei no vestibular para o curso de Pedagogia. Ingressei na então FESPI, hoje UESC. Cursei três semestres. Posteriormente, também iniciei estudos na UNOPAR, mas, por circunstâncias da vida, não concluí a graduação.

Entretanto, a vida, com sua sabedoria silenciosa, me conduziu por outro caminho: o jornalismo.

Foi através da palavra, da escrita e da comunicação que encontrei minha verdadeira vocação. Aquele jovem que caminhava pelas ruas de Itabuna, com fome após as aulas, carregando sonhos no coração, tornou-se jornalista, poeta e cronista de sua própria história e da história de sua gente.

Hoje, olhando para trás, vejo que cada dificuldade foi uma lição. Cada caminhada foi uma conquista. Cada prato simples foi um gesto de amor. Cada professor foi uma luz no caminho.

E assim, as lembranças não morreram com o tempo.

Elas continuam vivas, pulsando na memória e no coração, como páginas de uma vida que valeu a pena ser vivida.

Porque o tempo passa…

Mas as grandes lembranças permanecem.

Joselito dos Reis - 14 de abril de 2026

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