A poesia, o seu verdadeiro valor ou não!
Quando surgiu a poesia? O que é um verdadeiro poeta? E por que, mesmo sendo uma das mais antigas manifestações artísticas da humanidade, a poesia ainda não recebe a importância que merece?
Joselito dos Reis
A poesia nasceu muito antes da escrita. Antes que o homem registrasse seus pensamentos em tábuas, papiros ou livros, já cantava, contava histórias, celebrava seus deuses, lamentava suas perdas e expressava seus sentimentos por meio da palavra, do ritmo e da repetição.
Ela provavelmente surgiu da própria necessidade humana de comunicar aquilo que a linguagem cotidiana não conseguia explicar. O amor, a dor, o medo, a esperança, a natureza, a morte e o mistério da existência encontraram no canto e na palavra ritmada uma maneira de permanecer na memória.
Entre os registros poéticos mais antigos conhecidos está a Epopeia de Gilgamesh, originária da antiga Mesopotâmia, registrada em escrita cuneiforme há cerca de quatro mil anos. Mas a poesia já existia muito antes de ser colocada no papel ou na argila.
A poesia, portanto, não nasceu dos livros. Os livros é que, posteriormente, passaram a guardar a poesia.
O QUE É, AFINAL, UM VERDADEIRO POETA?
Ser poeta não depende de diploma, título acadêmico ou quantidade de livros publicados. Também não significa simplesmente conhecer regras de métrica, rima ou formas poéticas.
Esses conhecimentos podem aperfeiçoar a técnica, mas não são suficientes para transformar alguém em poeta.
O verdadeiro poeta possui, sobretudo, um olhar diferente sobre a vida.
Ele consegue enxergar beleza onde outros veem apenas rotina. Percebe a tristeza escondida em um sorriso, a solidão por trás de uma multidão, a esperança que permanece depois da derrota e o significado de uma pequena lembrança que o tempo não conseguiu apagar.
O poeta observa o mundo, mas também observa a si mesmo.
Ele transforma experiências em palavras e, muitas vezes, consegue dizer aquilo que milhares de pessoas sentem, mas não sabem expressar.
É aí que acontece a verdadeira magia da poesia: quando a experiência particular do poeta passa a pertencer também ao leitor.
POESIA NÃO É APENAS ESCREVER BONITO
Um poema pode ter palavras simples e, ainda assim, carregar uma enorme profundidade.
O verdadeiro poeta não precisa utilizar palavras difíceis para demonstrar conhecimento. Muitas vezes, é justamente na simplicidade que encontra a força.
A poesia não está somente na palavra escolhida, mas naquilo que ela desperta.
Um verso pode provocar lembrança. Outro pode provocar dor. Um terceiro pode trazer esperança. Às vezes, poucas palavras são capazes de abrir dentro de nós uma porta que permanecia fechada há muitos anos.
Por isso, escrever poesia não é apenas organizar palavras em linhas.
É transformar sentimento em linguagem.
A POESIA TAMBÉM NASCE DA TERRA ONDE VIVEMOS
Todo poeta carrega consigo um lugar.
Mesmo quando escreve sobre sentimentos universais, leva para a sua obra as paisagens que viu, as vozes que ouviu, as histórias que escutou na infância, os costumes de seu povo e a memória das ruas por onde passou.
Nesse sentido, minha própria poesia não pode ser separada da minha identidade grapiúna.
Ser grapiúna é carregar uma memória cultural profundamente ligada ao sul da Bahia, à terra do cacau, às fazendas, às matas, aos rios, às estradas, às cidades e às histórias de homens e mulheres que ajudaram a construir essa região.
É trazer na memória a força de uma gente acostumada ao trabalho, às dificuldades, às transformações da vida e, ao mesmo tempo, à beleza exuberante de uma terra que marcou gerações.
A identidade grapiúna não está apenas em um lugar geográfico. Ela também está na memória, na linguagem, nos costumes, nas histórias familiares e na maneira particular de olhar para o mundo.
Há uma poesia própria na terra do cacau.
Está no cheiro da terra depois da chuva, na sombra das árvores, no silêncio das antigas roças, no movimento das cidades, nas lembranças das fazendas, nas conversas das pessoas simples e nas histórias que passam de uma geração para outra.
Está também naquilo que não se vê, mas permanece.
O poeta grapiúna carrega a sua terra dentro de si.
E quando escreve, mesmo falando de amor, saudade, solidão ou esperança, muitas vezes está também escrevendo sobre suas origens.
A poesia, portanto, não precisa abandonar suas raízes para alcançar o universal.
Pelo contrário: é justamente quando o poeta fala com verdade de sua própria terra e de sua própria experiência que sua palavra pode encontrar outros corações.
COMO RECONHECER UM VERDADEIRO POETA?
O verdadeiro poeta é reconhecido, antes de tudo, pela sua voz própria.
Ele pode escrever sobre temas universais — amor, saudade, morte, tempo, natureza, solidão ou esperança —, mas sempre encontrará uma maneira particular de enxergá-los.
Sua poesia carrega uma identidade.
Também é possível reconhecer o poeta pela capacidade de provocar alguma coisa no leitor: um pensamento, uma emoção, uma lembrança, um questionamento ou simplesmente aquele silêncio que permanece depois da leitura.
Nem todo poema precisa explicar tudo. Às vezes, sua força está justamente naquilo que deixa para ser sentido.
Outro sinal importante é a autenticidade.
A poesia verdadeira não precisa fingir sentimentos. Ela nasce daquilo que o poeta conhece, observa, vive ou imagina. Pode falar de felicidade ou sofrimento, mas precisa possuir verdade interior.
O poeta não escreve apenas para mostrar que sabe escrever.
Ele escreve porque tem alguma coisa dentro de si que precisa ser dita.
POR QUE A POESIA AINDA É SUBESTIMADA?
Apesar de sua importância histórica e cultural, a poesia muitas vezes não recebe o devido reconhecimento.
Uma das razões está na própria educação. Para muitas pessoas, o primeiro contato com poemas acontece na escola de maneira excessivamente mecânica: métrica, rima, classificação, períodos literários e regras podem ocupar o espaço que deveria ser destinado também à emoção e à descoberta.
A técnica é importante, mas a poesia não pode ser reduzida à técnica.
Outro fator é o ritmo acelerado da sociedade contemporânea.
Vivemos cercados por informações, imagens, mensagens e conteúdos consumidos em poucos segundos. A poesia, entretanto, pede tempo.
Ela exige que o leitor pare, leia novamente, pense, sinta e, muitas vezes, permaneça alguns instantes em silêncio.
Há ainda a ideia equivocada de que poesia é coisa complicada, destinada apenas a intelectuais ou pessoas com grande conhecimento literário.
Isso também precisa ser superado.
A poesia pode ser erudita ou popular, clássica ou moderna, longa ou breve, rimada ou livre. Pode nascer em um grande livro ou em uma folha simples de papel.
Pode estar na voz de um repentista, no cordel, em uma canção, em um slam ou na reflexão silenciosa de alguém diante do mar.
A POESIA E A VIDA
A poesia acompanha o ser humano justamente porque acompanha a vida.
Quando nascemos, há poesia na esperança de quem nos recebe.
Na juventude, ela aparece nos primeiros amores, nos sonhos e nas descobertas.
Na maturidade, transforma-se em memória, reflexão e experiência.
Na velhice, pode tornar-se uma espécie de diálogo com o tempo: aquilo que vivemos, aquilo que perdemos e aquilo que ainda desejamos viver.
Por isso, a poesia não envelhece.
Ela apenas encontra novas formas de dizer as mesmas grandes questões humanas.
E talvez seja essa uma das razões de sua permanência ao longo dos séculos.
VALORIZAR A POESIA É VALORIZAR O SER HUMANO
Quando uma sociedade deixa de valorizar a poesia, não perde apenas uma manifestação artística.
Perde também um pouco da capacidade de contemplar, de imaginar, de questionar e de compreender os sentimentos humanos.
A poesia nos ensina que uma palavra pode carregar muitos significados. Ensina que o silêncio também pode falar. Ensina que uma lembrança pode atravessar décadas e que uma experiência individual pode encontrar eco na alma de outra pessoa.
O poeta, nesse sentido, exerce uma função especial: transforma aquilo que sente em uma linguagem que pode ser compartilhada.
Ele constrói pontes entre pessoas, épocas e sentimentos.
E, quando esse poeta traz consigo a memória de sua terra, ele também se torna um guardião de sua cultura.
É nesse ponto que a poesia grapiúna encontra sua dimensão maior: preservar em palavras aquilo que o tempo poderia levar.
Uma paisagem pode mudar. Uma fazenda pode desaparecer. Uma estrada pode ganhar outro traçado. Uma geração pode partir. Mas aquilo que foi transformado em memória e palavra pode continuar existindo.
Por isso, escrever também é uma forma de preservar.
CONCLUSÃO: ENQUANTO HOUVER HUMANIDADE, HAVERÁ POESIA
Talvez a maior prova da importância da poesia esteja justamente no fato de ela ter sobrevivido a milhares de anos de história.
Mudaram os povos, os idiomas, os costumes, as religiões, os sistemas políticos e as tecnologias. A humanidade passou da tradição oral à escrita, do papel ao livro impresso e do livro às telas. Entretanto, continuamos procurando palavras para falar do amor, da saudade, da perda, da esperança, da injustiça, da beleza e do mistério de existir.
A poesia mudou de forma, mas não perdeu sua razão de existir.
Ela está no livro de poemas, na canção, no cordel, no repente, no slam, na literatura popular, nas redes sociais e até naquela frase aparentemente simples que, em determinado momento da vida, consegue traduzir exatamente aquilo que sentimos.
Por isso, talvez seja necessário abandonar a ideia de que a poesia é uma arte distante, complicada ou reservada a poucos iniciados. Poesia não precisa ser um território de especialistas. Ela pertence à humanidade porque nasce de experiências que, de uma forma ou de outra, todos compartilhamos.
E o verdadeiro poeta não deve ser reconhecido apenas pelo número de livros, pelos prêmios, pelos diplomas ou pela quantidade de leitores. Deve ser reconhecido pela capacidade de enxergar, sentir e transformar a experiência humana em palavra.
O poeta é aquele que consegue olhar para o mundo e descobrir nele algo que ainda não havíamos percebido. É aquele que dá nome àquilo que permanecia sem nome. É aquele que transforma uma experiência individual em sentimento coletivo.
E, para o poeta grapiúna, existe ainda uma responsabilidade especial: não deixar morrer a memória da terra que o formou.
Porque cada lugar tem suas vozes, seus silêncios, seus personagens, suas dores e suas belezas. Registrar tudo isso em poesia é também uma maneira de dizer: eu estive aqui, eu vi, eu senti, eu vivi — e não quero que essa memória desapareça.
Talvez seja por isso que a poesia incomode algumas vezes. Ela nos obriga a parar. Em uma sociedade acostumada à velocidade, ela pede contemplação. Em um mundo que valoriza constantemente aquilo que produz resultado imediato, ela nos lembra que nem tudo o que é essencial pode ser medido em dinheiro, produtividade ou utilidade.
A poesia talvez não seja útil no sentido estreito da palavra — mas é profundamente necessária.
Necessária para preservar a memória. Para compreender nossos sentimentos. Para questionar o mundo. Para celebrar a vida. Para suportar a dor. Para imaginar outros futuros. E, sobretudo, para nos lembrar de que somos seres humanos antes de sermos números, funções ou consumidores.
Valorizar a poesia, portanto, é valorizar a própria capacidade humana de sentir e de imaginar.
E enquanto houver alguém disposto a olhar para o mundo com espanto, alguém disposto a transformar uma lágrima em verso, uma lembrança em palavra ou um silêncio em significado, a poesia continuará viva.
Porque a poesia não pertence apenas aos poetas.
Ela pertence a todos aqueles que ainda conseguem sentir o mundo para além daquilo que os olhos podem ver.
E talvez seja essa a maior herança de um poeta: deixar em palavras aquilo que o tempo jamais deveria apagar.
"Nunca jogue fora nada que vc escreva e leia até bula de remédio!". Conselho do poeta/mestre, Plínio de Almeida, a mim, há alguns anos, na redação do Diário de Itabuna, quando abriu uma "bolinha" de papel embolada e, lá estava um escrito meu; "Por que a flor/é símbolo do smor/ se o amor/é só fingimento e dor"... o resto conto depois! Só adianto que foi tema de sua crônica, "Nós pensamos assim!".
Joselito dos Reis
Poeta e jornalista
Grapiúna, por identidade, memória e pertencimento.
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