terça-feira, 28 de julho de 2026

Quando os jornais celebravam a cidade

 Recordar é Preciso:

Quando os jornais celebravam a cidade e a cidade celebrava os jornais.

Há um tempo, não muito distante, o aniversário de uma cidade representava muito mais do que uma data comemorativa. Era um verdadeiro marco para a imprensa escrita, para o comércio, para a indústria e para a própria população. Em municípios como Itabuna, as comemorações de emancipação política, ao lado do Natal e do Ano-Novo, constituíam os períodos mais aguardados pelos veículos de comunicação.

As empresas disputavam espaço nas páginas dos jornais. Havia orgulho em parabenizar a cidade onde nasceram, cresceram e prosperaram. As mensagens institucionais eram publicadas conforme tabelas de preços respeitadas, gerando receitas capazes de manter redações funcionando, pagar salários, impostos e garantir a sobrevivência dos jornais por vários meses.

Não era raro que essas edições comemorativas ultrapassassem cem páginas. Eram verdadeiros documentos históricos, reunindo reportagens especiais sobre a fundação da cidade, entrevistas, fotografias antigas, perfis de empresários, relatos de pioneiros e registros da evolução econômica, cultural e social do município. Em poucas horas, muitas dessas edições se esgotavam nas bancas, tamanha era a procura da população por guardar um pedaço da própria história.

O jornal cumpria uma missão que ia muito além de informar. Preservava a memória coletiva, fortalecia a identidade local e valorizava aqueles que ajudavam a construir o desenvolvimento da cidade.

O tempo, entretanto, mudou.

A internet revolucionou a comunicação. Trouxe velocidade, democratizou a informação e abriu espaço para novas formas de produzir conteúdo. Em seguida vieram as redes sociais, alterando profundamente os hábitos da sociedade e, principalmente, a forma de consumir notícias.

Infelizmente, junto com os avanços tecnológicos, desapareceu boa parte da cultura de investir na imprensa regional. Muitos empresários deixaram de anunciar. Diversos agentes públicos também passaram a ignorar veículos tradicionais, concentrando recursos em estratégias de interesse imediato, quase sempre voltadas ao alcance das plataformas digitais.

O resultado foi doloroso. Centenas de jornais encerraram suas atividades. Revistas desapareceram. Emissoras reduziram estruturas. Profissionais experientes deixaram as redações, levando consigo décadas de conhecimento e compromisso com a informação de qualidade.

A tecnologia não é a culpada. Ela representa uma conquista da humanidade. O problema está na perda da consciência sobre o valor da imprensa local, que continua sendo essencial para registrar os fatos da comunidade, fiscalizar o poder público, preservar a cultura e contar a história das cidades.

É preciso compreender que uma cidade sem memória escrita perde parte de sua identidade. E uma imprensa enfraquecida significa menos espaço para o debate, para a informação responsável e para a valorização daqueles que constroem o desenvolvimento regional.

Ainda há tempo de resgatar esse reconhecimento. Valorizar os veículos locais é investir na própria história da comunidade. Afinal, quando um jornal desaparece, não é apenas uma empresa que fecha as portas. Fecha-se também um capítulo da memória coletiva de um povo.

Recordar é preciso. E preservar essa história é um dever de todos nós.

Joselito dos Reis - Poeta e cronista

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