Tributo a Carlão!
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| Completaria neste 23 de março 74 anos de idade. |
Em meio à rotina simples de um salão de bairro, nasceu um legado que o tempo não apaga. Carlão — mais que um habilidoso cabeleireiro — foi um verdadeiro mestre de ofício e de vida.
Professor por vocação, ele formou inúmeros alunos ao longo dos anos. Em suas mãos, não estavam apenas tesouras e pentes, mas também a responsabilidade de ensinar, orientar e transformar destinos. Muitos que passaram por sua cadeira não saíram apenas com um novo visual, mas com uma profissão, uma oportunidade, um recomeço.
A imagem que acompanha este tributo, registrada por Joselito dos Reis, dois anos antes de seu falecimento, revela um pouco da essência desse homem simples e grandioso. Concentrado, cuidadoso, Carlão atende uma criança — cena comum em seu cotidiano, mas carregada de significado. Ali, naquele gesto, estava o amor pelo que fazia.
Seu salão não era apenas um ponto de trabalho. Era espaço de convivência, de aprendizado, de troca. Um verdadeiro “ponto” da comunidade, onde histórias eram contadas e vidas se cruzavam.
Carlão partiu, mas não levou consigo sua maior obra. Ela permanece viva em cada profissional que ajudou a formar, em cada lembrança cultivada por amigos e clientes, em cada ensinamento repassado adiante.
Ficam a saudade, o respeito e a certeza de que seu legado permanece.
Carlão não foi apenas um cabeleireiro.
Foi um mestre que ensinou com as mãos e com o coração.
Entre Tesouras, Risos e Eternidade
Uma história hilária de Theovaldo Araújo e o inesquecível Carlão
Por Joselito dos Reis
O salão que virou história
Falar de Carlos Alberto Santos, o nosso querido Carlão, é revisitar uma parte viva da história de Itabuna. Dono do tradicional Salão João Paulo II, ele transformou o espaço em um verdadeiro “point” da cidade — não apenas para cuidar da aparência, mas para cultivar amizades.
Amigo de infância, Carlão era do bairro da Conceição, enquanto eu vinha da Vila Zara. Sempre frequentei seu salão, embora, por um período, tenha deixado de cortar o cabelo com ele — não por falta de confiança, mas porque ele simplesmente não gostava de me cobrar. E eu, querendo pagar, acabei optando por outro lugar.
Essa decisão o deixou chateado. Afinal, mais que cliente, eu era amigo. Por isso, anos depois, voltei — e nunca mais saí.
Das origens ao sucesso
Fundado em 1983, na Rua Miguel Calmon, o salão teve uma inauguração memorável: sucos de cacau e cajá, whisky e os famosos quibes de Reinaldo Bitar marcaram o início de uma trajetória de sucesso.
Mais tarde, já instalado na Avenida Inácio Tosta Filho, o Salão João Paulo II consolidou-se como referência. Frequentado por autoridades, profissionais liberais, comunicadores e figuras populares, tornou-se símbolo de prestígio.
Carlão inovou ao adotar o atendimento com hora marcada — algo raro na época — e tratava a todos com atenção especial. Muitos comunicadores, inclusive, divulgavam espontaneamente o salão em seus programas, em reconhecimento ao carinho recebido.
Carlão: muito além do cabeleireiro
Mais do que um excelente profissional, Carlão era uma figura única. Vaidoso com sua profissão, não gostava de ser chamado de “barbeiro” — e menos ainda de ouvir críticas ao seu time do coração, o Vasco.
Curiosamente, havia quem desafiasse essas regras.
E não era qualquer um.
A dupla do humor: Theovaldo e Carlão
Entre os clientes mais ilustres estava o médico cardiologista Theovaldo Araújo — figura extraordinária, de humor afiado e coração generoso.
Era ele quem, sem cerimônia, chamava Carlão de “barbeiro” e ainda criticava seu time. E o mais curioso: Carlão, que não tolerava isso de ninguém, simplesmente... engolia calado.
Era uma relação única.
Quando Theovaldo não aparecia, o salão sentia falta — clientes, manicures, todos. E Carlão, impaciente, soltava:
— “O tampa de binga parece que não vem hoje!”
Minutos depois, lá vinha Theovaldo, já sorrindo, pronto para provocar. Carlão fechava a cara… mas não resistia: acabava rindo.
Era um espetáculo à parte.
Amizade, poesia e cumplicidade
Eu e Theovaldo compartilhávamos algo especial: éramos talvez os únicos que podíamos brincar abertamente com Carlão — e sair ilesos.
Após os cortes, ele sempre me chamava:
— “Poeta, vamos comigo?”
E eu ia. Porque, se ficasse, sabia que Carlão poderia “acertar as contas” pelas brincadeiras.
Theovaldo, além de médico, também era poeta. Admirava meus escritos, não me cobrava consultas e dizia, com humor:
— “Você manda em mim!”
Mas, claro, também fazia questão de tirar sarro de mim.
Era seu jeito de amar.
Entre a vida e a eternidade
Carlão, além de cabeleireiro, foi também árbitro da Federação Baiana de Futebol. Homem de personalidade forte, coração generoso e presença marcante.
Já Theovaldo, com sua leveza e irreverência, deixou saudades profundas.
Hoje, imagino os dois se reencontrando na eternidade — talvez em mais uma roda de risadas, sob a luz do Altíssimo.
Aqui, a vida é breve. Lá, é infinita.
Saudade que permanece
Carlão nos deixou em 24 de março de 2015, um dia após seu aniversário. Sua ausência ainda ecoa entre amigos, clientes e admiradores.
Theovaldo também partiu, deixando um vazio difícil de preencher.
E nós ficamos aqui... com as lembranças.
Com as risadas.
Com as histórias.
E com a certeza de que a vida, sem eles, ficou mais silenciosa.
Até breve, amigos...
Segurem nas mãos de Deus e sigam em paz.
Por aqui, seguimos guardando o que vocês nos deixaram de mais valioso:
a amizade, o humor e o amor pela vida.
Joselito dos Reis - Poeta e Jornalista

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