Editorial — Manifestos no sul da Bahia: o grito de uma região esquecida..
Os manifestos que continuam a ocorrer no sul da Bahia não são apenas atos isolados de insatisfação. São, na verdade, o grito coletivo de uma região historicamente construída sobre o cacau, que hoje se vê ameaçada por decisões econômicas e políticas tomadas longe de suas roças, cidades e tradições.
Entre Ilhéus e Itabuna, coração da região cacaueira, produtores, trabalhadores e lideranças têm ocupado estradas e praças para chamar atenção para a crise que se aprofunda. O motivo central é conhecido: a importação de cacau estrangeiro, sobretudo africano, somada à queda no preço pago ao produtor local, vem estrangulando economicamente quem sustenta a base produtiva regional.
Não se trata apenas de números ou mercado. O cacau moldou a identidade cultural, social e econômica do sul baiano. Foi ele que impulsionou o desenvolvimento urbano, financiou educação, comércio e infraestrutura, e projetou a região para o mundo. Ignorar a agonia desse setor é ignorar a própria história regional.
Os protestos revelam também um sentimento perigoso: o de abandono. Produtores afirmam que lutam praticamente sozinhos, enquanto aguardam medidas concretas que garantam competitividade ao produto nacional, proteção contra práticas desleais e políticas públicas capazes de assegurar a sobrevivência da lavoura.
É preciso reconhecer que manifestações nunca surgem do vazio. Elas nascem quando o diálogo falha e quando as instituições parecem distantes da realidade do povo. O bloqueio de rodovias e as mobilizações populares são sintomas de um problema maior — a ausência de respostas eficazes.
O Brasil não pode permitir que a região que já foi símbolo de prosperidade agrícola se transforme em território de desesperança. Defender o cacau do sul da Bahia é defender empregos, tradição, cultura e dignidade.
Este editorial não é apenas uma análise dos fatos, mas um alerta. Se nada for feito, o que hoje se manifesta nas estradas poderá amanhã se transformar em êxodo rural, colapso econômico e perda irreversível de um patrimônio histórico nacional.
O sul da Bahia não pede privilégios. Pede justiça.
E justiça, quando tarda, também é uma forma de abandono.

Nenhum comentário:
Postar um comentário