sexta-feira, 7 de agosto de 2026

VIDA HUMANA EM SEGUNDO PLANO!

Por Joselito dos Reis -Todos nós sabemos que o Sistema Único de Saúde (SUS) é uma das maiores estruturas de saúde pública do mundo. Criado para garantir atendimento universal e gratuito à população brasileira, o sistema representa uma importante conquista social.

Mas entre aquilo que está previsto na legislação e a realidade enfrentada diariamente por pacientes e profissionais de saúde existe, muitas vezes, uma distância enorme.

Quando recursos destinados à saúde são mal administrados, desperdiçados ou, eventualmente, desviados para finalidades ilícitas, quem paga a conta é justamente quem está na ponta mais frágil dessa cadeia: o cidadão que precisa de atendimento e o profissional que trabalha para oferecê-lo.

É como um efeito dominó. Os problemas começam em algum ponto da estrutura e, à medida que avançam, atingem hospitais, diretores, médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e, finalmente, o paciente — aquele que deveria estar no centro de todas as políticas públicas de saúde.

Quando falta o básico

Na região de Itabuna e Ilhéus, chegam relatos de dificuldades enfrentadas em unidades hospitalares. Entre as queixas estão a falta de materiais básicos, como fraldas descartáveis e outros itens necessários à assistência dos pacientes.

Também estamos recebendo denúncias que precisam ser devidamente apuradas sobre as condições oferecidas aos profissionais de enfermagem em hospitais da região, entre eles o Hospital Regional Costa do Cacau, em Ilhéus, o Hospital de Base Luís Eduardo Magalhães, o Hospital São Judas e outras unidades.

Segundo esses relatos, enfermeiros e técnicos de enfermagem enfrentariam dificuldades até mesmo para encontrar espaços adequados para descanso, banho e outras necessidades básicas durante suas jornadas de trabalho. Há ainda informações sobre profissionais que seriam obrigados a descansar em bancos e, em determinadas situações, até em macas.

Também são mencionadas dificuldades relacionadas à disponibilidade de água para consumo.

Se esses relatos forem confirmados, estamos diante de uma situação que merece atenção imediata das autoridades responsáveis.

Como exigir de um profissional de saúde dedicação integral, equilíbrio emocional e excelência no atendimento se ele próprio não encontra condições mínimas para trabalhar, descansar e cuidar da própria higiene?

Quem cuida de quem cuida?

Essa é uma pergunta que precisa ser feita.

Enfermeiros, técnicos de enfermagem e demais trabalhadores da saúde estão diariamente ao lado dos pacientes. São eles que acompanham o sofrimento, administram medicamentos, realizam procedimentos, auxiliam na higiene, escutam familiares e enfrentam, muitas vezes, situações emocionalmente extremas.

Não podemos esquecer que quem cuida também precisa ser cuidado.

A precarização das condições de trabalho não prejudica somente o profissional. Ela pode repercutir diretamente na qualidade da assistência oferecida ao paciente.

Por isso, as denúncias precisam ser investigadas pelos órgãos competentes. É fundamental ouvir os trabalhadores, as direções dos hospitais, os gestores municipais e estaduais e, principalmente, os usuários do SUS

Onde estão os recursos?

Outra questão precisa ser enfrentada com seriedade: o dinheiro destinado à saúde está chegando corretamente ao seu destino?

Não se pode afirmar, sem investigação e provas, que determinado recurso foi desviado. Mas é legítimo que a sociedade questione, fiscalize e cobre transparência sobre a aplicação do dinheiro público.

É necessário saber quanto foi destinado à saúde, quanto foi efetivamente aplicado, onde foi aplicado e quais resultados foram entregues à população.

Não podemos aceitar que a construção de grandes estruturas físicas seja utilizada como símbolo de eficiência enquanto, dentro delas, faltam materiais básicos, condições dignas de trabalho e assistência adequada aos pacientes.

Não adianta construir o chamado “elefante branco” se não houver recursos suficientes para mantê-lo funcionando.

A saúde pública não pode ser medida apenas pelo tamanho de seus prédios. Ela precisa ser medida pela quantidade de vidas cuidadas, preservadas e salvas.

A vida não pode ficar em segundo plano

O cidadão que procura um hospital público não está pedindo favor. Está exercendo um direito.

O profissional que trabalha em uma unidade de saúde também não está pedindo privilégio. Está reivindicando condições dignas para exercer uma atividade essencial à sociedade.

Por isso, é necessário que União, estados e municípios tratem os recursos da saúde com responsabilidade, transparência e absoluto respeito ao dinheiro público.

Que os órgãos de fiscalização cumpram seu papel. Que as denúncias sejam investigadas. Que eventuais irregularidades sejam responsabilizadas e que os recursos destinados à saúde cheguem àqueles que realmente precisam deles.

Porque, no final dessa longa cadeia, existe uma pessoa.

Existe um paciente.

Existe uma vida.

E vida humana não pode ser colocada em segundo plano.

Deus tenha piedade de nós!

Joselito dos Reis
Poeta e jornalista

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