terça-feira, 11 de agosto de 2026

Pesque e solte estreia no Campeonato Baiano e aproxima pesca esportiva da ciência

Especial - Livia Cabrsl - Estudantes da UESC atuaram como fiscais da competição e transformaram o campeonato em um espaço de intercâmbio entre pesquisa científica, conservação ambiental e pesca esportiva

Uma mudança no regulamento do Campeonato Baiano de Pesca de Praia (Surfcasting) colocou conservação ambiental e inovação científica no centro da temporada de 2026. Pela primeira vez, a maior parte da competição foi disputada na modalidade pesque e solte, em que os peixes são medidos na própria faixa de areia e devolvidos vivos ao mar logo após a captura.

O formato foi adotado em quatro das seis etapas disputadas em Santa Cruz Cabrália, Ilhéus e Canavieiras, onde a final ocorreu no último fim de semana. Nessas quatro etapas, os peixes foram medidos na praia e devolvidos ao mar após o registro. Estudos científicos indicam que, quando o manuseio segue protocolos adequados, a sobrevivência dos peixes é elevada, permitindo compatibilizar a prática esportiva com a conservação dos estoques pesqueiros.

A implantação do sistema resultou de uma parceria inédita entre a Federação Baiana de Pesca e Atividades Subaquáticas (FBPAS) e o Programa de Pós-Graduação em Zoologia da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Quinze estudantes de graduação, mestrado e doutorado foram capacitados em identificação de espécies, biometria e manejo para atuarem como fiscais da competição.

"Implantar a modalidade pesque e solte em um campeonato oficial foi um grande desafio. O sucesso da iniciativa só foi possível graças à parceria com a UESC e ao trabalho sério da equipe de fiscalização, que garantiu a aplicação dos protocolos durante toda a competição.", afirma a presidente da Federação Baiana de Pesca e Atividades Subaquáticas (FBPAS), Vilma Souza.

Além da fiscalização, o campeonato aproximou pesquisadores e pescadores. Em campo, os estudantes conheceram espécies que antes viam apenas em coleções zoológicas e conviveram com pescadores experientes, que compartilharam técnicas e observações sobre o comportamento dos peixes.

"Finalmente consegui ver muitos dos peixes que conhecia apenas conservados em formol durante as aulas práticas. Sempre ouvi dizer que o roncador fazia barulho, mas escutá-lo 'roncando' pela primeira vez foi uma experiência inesquecível", afirma Vivian Ferraz Gonçalves, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Zoologia da UESC.

O contato com os pescadores também ajudou a desconstruir percepções sobre a pesca esportiva. "Eu não imaginava o quanto os pescadores eram comprometidos com a conservação. Todos demonstravam preocupação genuína com a saúde das praias e com o futuro dos estoques pesqueiros. Eles querem que filhos e netos possam viver essa mesma experiência na natureza", diz a doutoranda Camila Alves de Carvalho Melo.

Tecnologia

A etapa final, disputada sob chuva intensa, também despertou ideias para modernizar a arbitragem das provas. Doutorando da UESC, Julián Barillaro, que desenvolve pesquisas com inteligência artificial para identificar polinizadores do cacau, passou a imaginar uma tecnologia semelhante aplicada à pesca esportiva. "Durante a chuva tivemos dificuldade para registrar as medidas dos peixes. Foi então que pensei em desenvolver um aplicativo capaz de identificar automaticamente a espécie, registrar as medidas biométricas e enviar tudo diretamente para a planilha de resultados. A UESC reúne todas as competências para criar uma ferramenta como essa", afirma.

Para o professor Mirco Solé Kienle, docente do Programa de Pós-Graduação em Zoologia da UESC e integrante da Seleção Brasileira de Pesca, a parceria ajudou a aproximar cientistas e pescadores. "Existe um estereótipo de que pescadores e cientistas estão em lados opostos, mas aconteceu exatamente o contrário. Os pescadores ensinaram muito sobre as espécies, o mar e as técnicas de captura, enquanto nossos estudantes contribuíram com conhecimentos sobre biologia, identificação das espécies e boas práticas de manejo. Todos aprenderam juntos."

Mirco também destaca o potencial da modalidade como alternativa de lazer ao ar livre. "Vivemos uma época em que muitas crianças e adolescentes passam horas diante das telas. A pesca esportiva oferece uma atividade que reúne exercício físico, contato com a natureza, convivência familiar e emoção."

Resultados

Ao longo das seis etapas, o Campeonato Baiano reuniu 123 atletas e definiu os campeões das categorias feminino, juvenil, masculino, máster e sênior, além da equipe que representará a Bahia no Campeonato Brasileiro de Pesca de Praia, que será realizado em outubro, no Ceará. O Clube do Barquinho, de Ilhéus, conquistou o título por equipes.

A parceria entre a UESC e a FBPAS terá continuidade, com novos projetos voltados à pesquisa, à formação de profissionais e ao desenvolvimento de tecnologias para a pesca esportiva.

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